A Adaptação de Jogos para o Cinema — Uma Análise sobre Ao Oni
Introdução
Trazer o conteúdo de um jogo para as telonas não é uma tentativa ou prática recente. Esse campo começou a ser explorado na década de noventa e teve seus casos memoráveis. Porém, na época, jogos não eram como nós conhecemos hoje em dia, sua trama não era complexa e se tornavam icônicos através do seu tema, universo, personagens e jogabilidade. Nesse sentido, a adaptação se baseava no sucesso em captar a essência e transmiti-la em outra mídia e formar um enredo agradável com os personagens uma vez já famosos e queridos por aquela comunidade e implementar referências a itens ou situações frequentes ou memoráveis durante a gameplay.
Entretanto, os jogos progrediram para ser mais do que apenas um divertimento, eles também procuram avidamente a imersão, inspirados igualmente na indústria cinematográfica. Mesmo videogames que fogem do que chamamos de “jogo narrativo”, com foco total em fazer um filme jogável através de escolhas, possuem um apreço muito grande pela composição das cenas, o uso da câmera e da sonoplastia afim de entregar ao jogador a sensação de pertencer igualmente a aquele mundo sendo mostrado.
Diante disso, além da expectativa dos fãs, existe a
preocupação inata com o roteiro. Jogos costumam durar, mesmo que os mais curtos
e simples, muito mais do que 2 horas, então “Como pegar a essência do jogo e adaptar
essa história cheia de escolhas e caminhos alternativos para as telas com uma
duração relativamente pequena?” é um desafio constante e causa de muitas
avaliações negativas por parte do público alvo.
O Caso de Ao Oni
Ao Oni é um jogo de terror desenvolvido por Noprops em RPG Maker XP e sua primeira versão foi lançada no fim do ano de 2008, mas começou a ficar famoso no lançamento da versão 3.0 e, no Brasil, sua explosão de popularidade ocorreu após com a ampla variedade de gameplays no Youtube da última versão lançada em 2011, a versão 6.23, também conhecida por ser o produto final ao qual recebeu tradução para o Inglês.
O videogame, com 2 a 4 horas de duração, tem a simples
proposta de um grupo de jovens adultos: Hiroshi, Takeshi, Takuro e Mika, ao
ouvirem a lenda sobre um suposto “Demônio Azul” que mora em uma mansão
abandonada nas proximidades, decidem verificar a veracidade dos relatos em um
teste de coragem. Em quesito gameplay, o jogador apenas assume o controle
Hiroshi e resolve puzzles (quebra-cabeças) para escapar enquanto esse monstro o
persegue aleatoriamente pela enorme mansão cheia de mistérios. Sendo este, essencialmente,
o charme do jogo: bater a cabeça tentando achar uma solução para progredir sem
saber quando será pego de surpresa pelo perseguidor.
Com uma proposta tão simples, a essência para retratar esse
jogo é principalmente, claro, retratar a figura icônica do Ao Oni, a qual é tão
marcante pelo seu design simples, mas supreendentemente esquisito e fácil de se
lembrar. Assim, a liberdade criativa é uma carta chave para a criação de outras
mídias de entretenimento e isso foi muito bem visto com Ao Oni: The Animation (Aooni
the Blue Monster), um curta-metragem animado com 13 episódios de 3 minutos,
lançado como uma série de TV em 2016 refazendo as cenas clássicas do jogo e adicionando
interação dos personagens de maneira inédita e cômica, com piadas nonsense que
reinventam a história do monstro.
Mas tirando o foco das posteriores animações, a primeira vez que o videogame ganhou palco nas telonas foi no ano de 2014, com o lançamento do filme nomeado análogo ao jogo: “Ao Oni”.
O Primeiro Filme: Ao Oni
Produzido pela Digital Frontier e dirigido por Kobayashi Daisuke, o filme se propõe a adaptar a história Light Novel publicada levando-se em conta as inspirações da versão 3.0, onde o elenco era composto por adolescente e não universitários. Algo a ressaltar primeiramente, como a novel não é de fácil acesso no Brasil como o jogo, foi impossibilitado compará-la diretamente com o material que foi adaptado e, sim, com o videogame original, mas se encontra na internet afirmações sobre como o conteúdo foi modificado, como na wiki. Ademais, o livro também não é de autoria do criador, sendo escrito por Kenji Kuroda, também responsável pela adaptação aos mangás de Ace Attorney, que se inspirou no jogo para desenvolver a trama.
Nesta adaptação, além das figuras conhecidas na mídia digital dos videogames, temos a participação extra de Shun e Anna, personagens principais para essa trama. Eles são apresentados nos primeiros minutos do longa e passamos a conhecer melhor a fachada tímida de Shun e a introversão de Anna. A introdução desses novos rostos no elenco é refrescante, além do fato de poder enxergar melhor as personalidades e os seus estereótipos de cada um dos participantes originais, apesar de haver mudanças sobre os personagens, principalmente a se tratar da figura de Takuro. Não são mudanças ruins e, ao contrário disso, adicionam uma camada a mais de desenvolvimento e profundidade.
Focando-se além do quesito narrativo, que teve uma nova luz que explora o conceito de “assistir pela segunda vez a perspectiva é levemente diferente”, este filme apresenta uma direção que chama atenção em alguns pontos chaves. A câmera sempre está tremendo levemente ou deslocada em um ângulo estranho, o que traz um sentimento de ansiedade e estranhamento para o espectador e cria um ótimo clima. Além disso, há cenas no ponto de vista de personagens sendo perseguidos que demonstra mais uma vez como é estar na pele deles e transmite perfeitamente o sentimento de claustrofobia ao correr em corredores estreitos enquanto um monstro enorme está logo atrás. Em quesitos técnicos, pode-se afirmar que foi introduzida várias experimentações e ideias para compor as cenas, mesmo que as mais simples e parecem funcionar perfeitamente bem.
Por fim, o mais importante: O Monstro. Ele não é retratado
tão fielmente ao original, mas ainda tem o seu charme, apesar de não ser mais o
fato atrator. O Ao Oni tem poucas cenas de real destaque, o que é uma pena no
ponto de vista de quem conhece a obra e veio buscando justamente isso: um
monstro esquisito perseguindo incansavelmente pessoas.
No geral, é um filme com uma direção boa, narrativa decente, mas nada digna de nota, e um terror um pouco fora das margens que consideramos “trash”, não tem aqueles momentos tão toscos que nos fazem rir, apenas cenas que buscam a estranheza e o fazem exatamente como proposto.
O Segundo Filme: Ao Oni 2.0
Desta vez, dirigido Hideaki Maekawa e com um elenco mais fiel aos visuais originais, até mesmo do monstro, este filme foi lançado em 2015 com a intenção de adaptar a segunda light novel da série, sucessora direta daquela em que foi adaptada no primeiro filme. Porém, mesmo sem embasamento do conteúdo da light novel em si, é possível perceber que qualquer intenção de ser uma continuação foi tirada. Neste longa, revemos a história já uma vez nos apresentada, mas em uma perspectiva e acontecimentos completamente diferentes e focados mais exclusivamente no elenco original: Hiroshi, Takeshi, Takuro e Mika, mesmo que ainda haja a presença de Shun e Anna, mas como coadjuvantes.
As referências aos puzzles originais ao jogo estão muito mais presentes e as cenas deixam bem claro que foram feitas principalmente para despertar as memórias dos espectadores com momentos que remetem experiências marcantes, ainda mais do que na primeira adaptação. Esse filme grita fanservice e apela para os fãs. O que não é essencialmente ruim.
Ao Oni combina perfeitamente com um filme de terror trash de categoria B e aqui que tudo se comprova. Mesmo mantendo um pouco da essência da câmera vista no primeiro filme, as composições parecem não propositalmente descontraídas e toscas, além de trazer mais um dos vilões mais marcantes que o próprio Ao Oni, o Fuwatti, que escala o nível de recepção. É uma experiência que provavelmente não agrade quem não conhece a série, ou até mesmo quem conhece ou esperava algo com um tom mais sério, mas dado a proposta narrativa ser envolta nos personagens dentro do próprio jogo, transmite que essa sempre foi a intenção.
No geral, a qualidade técnica e a narrativa são inferiores ao primeiro Ao Oni e não tem nada que se ressalte, mas traz consigo uma releitura completamente diferente e, talvez, ousada para o público de estar “assistindo Ao Oni”, mas ainda assim, muito divertida.
Conclusão
Através dessas duas adaptações podemos ver os dois lados de uma mesma moeda, o mesmo jogo, os mesmos personagens, o mesmo ambiente, a mesma narrativa. E resultados completamente diferentes. Enquanto um remonta mais a arte do cinema e seu comprometimento em tentar alcançar a imersão e qualidade técnica, o outro reconstrói tudo que as pessoas mais gostavam no jogo e os dispõe amostra apelando para outro tipo de cinema: os filmes trash de categoria B.
Isso demonstra que a independente do material original, fazer uma produção cinematográfica engloba decisões do diretor, seu carinho pela adaptação e sua maneira de pescar o público alvo e, mesmo em jogos, seja os simples ou os complexos, com a devida dedicação pode-se alcançar muito além do que se pretendia.
Extra
Este foi um trabalho que fiz para avaliação de uma optativa da minha faculdade envolvendo Cinema e uso da Câmera, mas resolvi transcrevê-lo para cá, por que não? Acabou abrangendo o melhor dos dois mundos, um pouco de técnica e um pouco do meu ponto de vista e diversão.
Por fim, deixo minha impressão própria: Ao Oni 2.0 é o tipo
de filme perfeito para se assistir sem compromisso com os amigos, enquanto a
pegada séria do primeiro pode não agradar tanto. Então, escolha sua vibe do dia
e se aventure nessa série que está no coração de todos os amantes de RPGs
Makers de plantão! ❤️
Feliz 2026!!!!
~Molzy

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